sábado, 5 de abril de 2008

Bíblia não está escrita para fazer ciência, mas para dar salvação»

Comentário do Pe. Cantalamessa
III Domingo de Páscoa

Atos 2, 14a.22-28; 1 Pedro 1, 17-21; Lucas 24, 13-35
Explicou-lhes as Escrituras
«Acaso não ardia nosso coração enquanto falava conosco, no caminho, quando nos explicava as Escrituras?». Desejamos refletir precisamente sobre este ponto do Evangelho relativo aos discípulos de Emaús: as Escrituras. Há duas formas de aproximar-se da Bíblia. A primeira é considerá-la um livro antigo, cheio de sabedoria religiosa, de valores morais e também de poesia. Deste ponto de vista, é absolutamente o livro mais importante para compreender nossa cultura ocidental e a religião judaico-cristã. É também o livro mais impresso e mais lido de toda a humanidade.
Mas existe outra forma, muito mais comprometida, de aproximar-se da Bíblia; é a de crer que ela contém a Palavra viva de Deus para nós. Que é um livro «inspirado», isto é, escrito, sim, por autores humanos, com todos os seus limites, mas com a intervenção direta de Deus. Um livro muito humano e, por sua vez, que fala ao homem de todos os tempos, e lhe revela o sentido da vida e da morte.
Sobretudo lhe revela o amor de Deus. Se todas as Bíblias do mundo, dizia Santo Agostinho, por algum cataclismo, fossem destruídas e sobrasse uma só cópia, e desta já não fosse legível mais que uma página, e de tal página só uma linha, se esta linha é a da primeira Carta de João, onde está escrito: «Deus é amor», toda a Bíblia teria sido salva, porque ela se resume nisso. Isso explica por que tantas pessoas se encaminham à Bíblia sem cultura, sem grandes estudos, com simplicidade, com fé em que é o Espírito Santo quem fala nela, e aí encontram respostas a seus problemas, luz, alento, em uma palavra: vida.
As duas formas de aproximar-se da Bíblia – a erudita e a da fé – não se excluem; mais ainda, devem manter-se unidas. É necessário estudar a Bíblia, os modos em que se pode interpretá-la (ou levar em conta os resultados de quem assim a estuda), para não cair no fundamentalismo. O fundamentalismo consiste em tomar um versículo da Bíblia literalmente e aplicá-lo assim às situações de hoje, sem considerar a diferença de cultura, de tempo, os diferentes gêneros literários da Bíblia. Crê-se, por exemplo, que o mundo tem pouco mais de 4 mil anos de idade, porque são os anos que se desprendem da Bíblia, ainda que sabemos que, se falamos de anos, o mundo tem vários bilhões, só que a Bíblia não está escrita para fazer ciência, mas para dar salvação. Deus, na Bíblia, adaptou-se a falar da forma em que os homens do tempo pudessem entender; não escreveu só para os homens da era tecnológica.
Por outro lado, contudo, reduzir a Bíblia a um mero objeto de estudo e de erudição, permanecendo neutros diante da sua mensagem, significa matá-la. Seria como se um namorado que recebeu uma carta de amor de sua namorada começasse a examiná-la com o dicionário, desde o ponto de vista da gramática e da sintaxe, e se detivesse nestes aspectos, sem perceber o amor que contém. Ler a Bíblia sem fé é como abrir um livro em plena noite: não se vê nada, ou ao menos não o essencial. Ler a Escritura com fé significa lê-la com referência a Cristo, captando, em cada página, aquilo que tem a ver com Ele. Como Ele fez com os discípulos de Emaús.
Jesus ficou entre nós de duas maneiras: na Eucaristia e na sua Palavra. Em ambas Ele está presente: na Eucaristia em forma de alimento, na Palavra em forma de luz e de verdade. A Palavra tem uma grande vantagem sobre a Eucaristia. Da comunhão não se podem aproximar mais que os que já crêem e estão em estado de graça; da Palavra de Deus, ao contrário, podem se aproximar todos, crentes e não-crentes, casados e divorciados. E mais ainda, para chegar a ser crente, o meio mais normal é precisamente o de escutar a Palavra de Deus.
[Tradução: Élison Santos. Revisão: Aline Banchieri]

3º Domingo de Páscoa

Invisível presença


Uma invisível Presença nos acompanha em nosso caminho pela vida. Discretamente, vai nos convidando à escuta das profundezas do sentido, mas para ouví-las é preciso aprender a navegar ao mesmo tempo em dois mares: a vida e as Escrituras.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Síndrome da dispersão

Consegui algumas vitórias e descobri certos segredos da alma que faz silêncio, adora, aquieta-se e ama
Quando entrei para o seminário, em 1976, havia lá um formador que havia passado um tempo de estudos na Europa e voltara cheio de idéias. Uma de suas criatividades era um curioso “Catálogo de problemas pessoais”. Éramos todos garotos de sexta até oitava série. Tínhamos entre 13 e 15 anos de idade. Entrávamos na adolescência longe da família e precisávamos de um rumo. Ele inventou o tal “catálogo” com mais ou menos 300 problemas que um “quase-jovem” poderia enfrentar. A orientação era a seguinte: “Se for um probleminha, tome um lápis e marque um X; se for um problema maior, coloque um círculo em torno do X. Se o problema for enorme coloque dois círculos. Quando for conversar com seu orientador, leve junto o seu caderno. Aos poucos você vai resolver seus problemas e poderá ir apagando os círculos até resolver todos os problemas completamente e apagar até mesmo o X”.
Tenho esse caderno até hoje, apesar de entender os evidentes limites da metodologia. Estes dias estive revirando velhos arquivos e dei de cara com a lista de problemas. Lá estava o meu maior problema daquele tempo, que até hoje permanece com dois círculos: “Ser disperso, distraído”. Lembro o quanto lutei contra essa tendência inata de estar sempre muito concentrado… mas, não exatamente naquilo que era oportuno naquela hora. É só entrar na capela e começar a rezar que tenho idéias e mais idéias. No volante, às vezes, tenho de parar o carro para anotar a letra ou a melodia de alguma canção. Tive de estudar Filosofia para entender que esse aparente “defeito de fabricação”, na verdade, era uma grande qualidade se administrada do jeito certo. O pensador é alguém que consegue se distrair e se maravilhar com as coisas aparentemente mais irrelevantes. Quando começo a fazer uma pesquisa, preciso me distrair com o objeto pesquisado. Isto é, preciso do êxtase de quem se distrai.
Foram anos e mais anos procurando dominar esse talento natural. Consegui algumas vitórias e descobri certos segredos da alma que faz silêncio, adora, aquieta-se e ama. Rezar é distrair-se com Deus. Rezamos quando ficamos distraidamente olhando um lago e nos colocamos no colo do Criador de tudo aquilo. A distração pode terminar em louvor.
Mas existe também a síndrome da dispersão que pode matar a nossa saudável distração. Pensei que era uma luta minha, irremediavelmente distraído. Mas, aos poucos, percebo que vivemos em um mundo cada vez mais disperso. As pessoas entram em casa e não sabem cozinhar sem ligar a TV. Passam roupa, distraídas, com algum inútil programa de rádio que repete as mesmas baboseiras 24 horas todo dia.
A juventude está cada vez mais dispersa na Internet. Esse meio maravilhoso poderia ser utilizado para fazer milagres e alcançar mais e mais conhecimento. Mas entro numa Lan House e vejo, num passar de vistas, todos os computadores plugados em programas de bate-papo no estilo MSN. A conversa não vai “dois centímetros de profundidade”, pois é preciso conversar com cinco ou seis pessoas ao mesmo tempo. Isso quando ao mesmo tempo não se está em alguma sala virtual, em algum outro programa de relacionamento e atualizando sua página de Orkut. É uma doença. Pesquisas iniciais indicam que a Internet, utilizada dessa forma, provoca dificuldade de concentração nos jovens estudantes.
Existem muitas armadilhas tecnológicas que podem capturar nossa concentração e nos deixar dispersos. Vejo pessoas que tentam trabalhar com um celular ao lado, que toca a cada 10 minutos; com o MSN e o Skype ligados, e assim, elas falam, falam, falam… Um telefone convencional toca às vezes, um rádio está ligado bem baixinho! É possível trabalhar assim? Nosso mundo está disperso. Nós latino-americanos somos tropicalmente quentes e temos por natureza climática mais dificuldade de concentração do que um alemão, por exemplo.
Precisamos rever nossos conceitos. Não seria a hora de retomar o nosso “catálogo de problemas” e tentar apagar este “X”? Quem sabe possamos começar fazendo um esforço de ficar meia hora em silêncio por dia. Parece simples, não é? Dizem que qualquer empresário que conseguir fazer isso terá sucesso. Por que não tentar?
Padre Joãozinho, SCJ

PAPA CONVIDA A REZAR NESTE MÊS PARA QUE SEJAMOS TESTEMUNHAS DE CRISTO RESSUSCITADO

"Para que os cristãos, também nas situações difíceis e complexas da sociedade de hoje, não se cansem de proclamar com a sua vida que a Ressurreição de Cristo é fonte de esperança e de paz": essa é a intenção geral de oração do papa para este mês de abril. Portanto, uma intenção centralizada no Mistério pascal. Aproveitamos para recordar algumas reflexões de Bento XVI sobre a Ressurreição e sobre o valor de seu testemunho.A Ressurreição de Cristo é "ponto chave do cristianismo", que "mudou o curso da história": na audiência geral de 26 de março próximo passado, a primeira depois da Páscoa, Bento XVI exortou os fiéis a reiterarem essa verdade fundamental da nossa fé. "O enfraquecimento da fé na ressurreição de Jesus torna conseqüentemente frágil o testemunho dos fiéis" _ evocou o Santo Padre."De fato, se vacila na Igreja a fé na Ressurreição, tudo pára, tudo desmorona" _ ressaltou ele."Pelo contrário, a adesão do coração e da mente a Cristo morto e ressuscitado muda a vida e ilumina toda a existência das pessoas e dos povos _ destacou o pontífice. Não é, talvez, a certeza de que Cristo ressuscitou que dá coragem, audácia profética e perseverança aos mártires de todos os tempos? Não é o encontro com Jesus vivo que converte e fascina tantos homens e mulheres, que desde o início do cristianismo continuam deixando tudo para segui-Lo e colocando a própria vida a serviço do Evangelho?"Voltando com a memória a outubro de 2006, o papa dedicou o discurso no Congresso nacional da Igreja italiana, realizado em Verona, na região do Veneto, ao tema fundamental da Ressurreição e de seu testemunho. Com a Ressurreição de Cristo _ afirmou naquela ocasião _ "o meu próprio eu é eliminado e é inserido um novo sujeito maior, no qual o meu eu se encontra novamente, mas transformado". Tornamo-nos assim "um em Cristo, um único sujeito novo":"Eu, mas não mais eu: essa é a fórmula da existência cristã fundada no Batismo, a fórmula da ressurreição dentro do tempo, a fórmula da novidade cristã chamada a transformar o mundo. Aí está a nossa alegria pascal."Bento XVI nos recorda que "a nossa vocação e a nossa tarefa de cristãos consistem em cooperar para que chegue a cumprimento efetivo, na realidade cotidiana da nossa vida, aquilo que o Espírito Santo iniciou em nós com o Batismo":"De fato, somos chamados a nos tornarmos mulheres e homens novos, para que possamos ser verdadeiras testemunhas do Ressuscitado e, desse modo, portadores da alegria e da esperança cristã no mundo, concretamente, naquela comunidade de homens e mulheres na qual vivemos."A Ressurreição de Jesus _ explica o pontífice com palavras fortes _ foi como "uma explosão de luz, uma explosão do amor que rompe as amarras do pecado e da morte". É um evento _ ressalta _ que "inaugurou uma nova dimensão da vida e da realidade, da qual emerge um mundo novo, que penetra continuamente em nosso mundo, o transforma e o atrai a Si."

quinta-feira, 3 de abril de 2008

46ª. ASSEMBLEIA GERAL DOS BISPOS ITAICI DA CNBB

Homilia de dom Raimundo Damasceno Assis
Bela e louvável é a tradição de nossa Conferência de, a cada ano, celebrar a Eucaristia pelos irmãos falecidos desde a última assembléia.
No lapso de um ano, onze de nossos irmãos passaram desta vida para a Casa do Pai. Alguns deles mais jovens e com menos de dez anos de ordenação episcopal; outros - a maioria -, já idosos e um longo caminho percorrido a serviço do povo de Deus.
Ao fazer memória, nesta eucaristia, de nossos queridos e saudosos membros de nossa Conferência, queremos, unidos a Cristo, o Bom Pastor, elevar a Deus nossas preces em sufrágio por suas almas. Nesta celebração, louvamos e agradecemos a Deus pelas vidas de nossos irmãos, doadas até o fim ao Reino de Deus, no mister de pastores e guias espirituais de suas comunidades.
Na celebração da Páscoa definitiva de nossos irmãos no reino da vida eterna, após terem eles vencido toda sorte de provação, podemos repetir as palavras da epístola de São Tiago: “Feliz o homem que enfrenta a provação porque, uma vez reconhecido o seu valor, receberá a coroa da vida que o Senhor prometeu aos que o amam.” (Tg 1,12)
Entre os bispos falecidos desde a última assembléia, peço-lhes permissão, caríssimos irmãos e irmãs, para destacar a figura de meu predecessor na Arquidiocese de Aparecida, o Cardeal Arcebispo Dom Aloísio Lorscheider, falecido no dia 23 de dezembro de 2007, em Porto Alegre. Nos últimos anos, passados na capital gaúcha junto aos seus confrades, na casa provincial, levou, como sabemos, vida simples e modesta.
Dom Aloísio exerceu importantes cargos na Igreja e os desempenhou com grande diligência e competência.
Entre muitas outras funções exercidas, foi Secretário-Geral e Presidente da CNBB, cargos que ocupou durante os difíceis anos do regime militar. Nesse período, Dom Aloísio, defendeu com firmeza o bem comum, os direitos humanos dos perseguidos pelo regime e o papel social da Igreja. Foi também Presidente do CELAM e da Cáritas Internacional e um dos Presidentes da Conferência de Puebla, no México. Participou de várias Comissões do Concílio Vaticano II.
“É bom ser importante, mas é muito mais importante ser bom”, dizia o bem-aventurado João XXIII. Dom Aloísio, embora tenha exercido funções da mais alta relevância, destacou-se sempre, e sobretudo, por sua imensa bondade e modéstia. Como poucos, compreendeu que todo cargo é serviço e, por isso, procurou testemunhar, na sua vida e no seu ministério, a paternidade de Deus e a bondade, a solicitude e a misericórdia de Cristo, o grande Pastor das ovelhas (Hb 13,20).
Seu testamento, escrito em Roma em 21 de junho de 1990, revela o seu grande amor à Igreja, o seu espírito de fé, a sua simplicidade, o despojamento das coisas materiais, marcas de sua espiritualidade.
Eis alguns trechos do testamento:
- “Nunca me afastei da orientação do Papa; a comunhão com ele é garantia de segurança rumo à Estação Eterna”;
- “Gratidão aos meus irmãos Cardeais, Arcebispos e Bispos. Aos padres, religiosos, cristãos leigos e pessoas de boa vontade que encontrei nestes meus anos de vida neste tempo”;
- “Amei muito a nossa Conferência. Quanta luz, quanta orientação, quanta dedicação... Ela é uma bênção para a nossa Igreja no Brasil. Também o CELAM”;
“Não existe morada mais feliz do que a morada do meu Senhor. Ele foi à frente preparar a morada. E ele nunca decepcionou a ninguém. Fico à espera de todos junto do Pai. Aproveitem o tempo que ainda lhes é dado. Só junto do Senhor, poderemos ser felizes”.
Caríssimos irmãos e irmãs: busquei esses trechos do testamento de Dom Aloísio para, neste momento de saudades, evocar sua memória, recordando-nos de quão simples e generosa foi a sua vida, de quão firme e segura foi a sua fé. Em breve resumo, a existência terrena de dom Aloísio foi toda tecida de santidade, amor e fidelidade. Por certo, tantas qualidades pessoais o farão sempre lembrado como um dos expoentes do episcopado brasileiro, um dos mais belos exemplos para todos quantos integram e vierem a integrar os quadros de nossa Conferência episcopal.
Irmãos e irmãs, nas palavras do evangelista João proclamadas nesta celebração, encontramos esta verdade: “Aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus, porque Deus lhe dá o espírito sem medida. O Pai ama o Filho e entregou tudo em suas mãos.” (Jo 3,34-35). Este trecho do evangelho mostra-nos a plenitude da graça que recebemos do Cristo ressuscitado, que é para nós a revelação de Deus, a revelação do amor de Deus, a nossa riqueza, o nosso maior tesouro. “Quem crê Nele – assegura-nos a Palavra de Deus - possui verdadeiramente a vida eterna” (Jo 3,36). No Cristo ressuscitado, essa vida nova está em nós.
O Papa Bento XVI, no Discurso Inaugural da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe fala-nos da importância única e insubstituível de Cristo para nós, para a humanidade: “Se não conhecemos Deus em Cristo e com Cristo, toda a realidade se converte em um enigma indecifrável; não há caminho, e, ao não haver caminho, não há vida nem verdade” (DI 3). E em seu Discurso à Cúria Romana, em 21 de dezembro de 2007, Sua Santidade diz: “Em Jesus Cristo surgiu para nós uma grande Luz, a grande Luz: não a podemos colocar debaixo do alqueire, mas devemos pô-la no lucernário, para que, ilumine a quantos estão na casa (Mt5,15)”
Caríssimos irmãos e irmãs, os exemplos deixados por nossos irmãos falecidos nos inspirem e nos fortaleçam na missão que Cristo confiou aos apóstolos e a nós, bispos, seus sucessores: “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28, 19-20).
Dom Raymundo Damasceno AssisArcebispo de Aparecida-SP
Assembléia Geral dos Bispos, Itaici/2008

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Gavi de ABRIL de 2008 em Fortaleza

Ser Jesuíta











Encontro vocacional nos dias 05 e 06 de Abril. Informações: Pe. Edvam (edvam@rocketmail.com) ou Agnaldo ( agnaldosj@yahoo.com.br)

JOÃO PAULO II TINHA QUALIDADES SOBRENATURAIS

- DIZ BENTO XVI EM MISSA NA PRAÇA SÃO PEDRO

Cidade do Vaticano, 02 abr (RV) - Hoje, dia em que se recorda o terceiro aniversário da morte de JPII, o papa Bento XVI celebrou uma missa no patamar da Basílica de São Pedro, para cerca de 50 mil fiéis. Em sua homilia, o Santo Padre recordou aquela memorável noite, que ficou impressa na memória da Igreja e do mundo. Nos dias seguintes, a Basílica Vaticana e a Praça São Pedro estiveram no centro da atenção mundial. Milhares de peregrinos italianos e provenientes de muitos países homenagearam o corpo do venerado pontífice, e seus funerais foram um testemunho concreto de estima e afeto para com o papa polonês.De fato, em 26 anos de pontificado, JPII conquistou os fiéis de todas as partes da terra, independentemente de raça, credo ou proveniência. Assim, disse Bento XVI, a Igreja recorda hoje seu amado Predecessor, que nutria uma fé extraordinária em Cristo ressuscitado, e com Ele mantinha uma relação íntima, espiritual e mística:“Era suficiente observá-lo quando rezava: ele se imergia totalmente em Deus, dando a impressão de que todo o resto, naquele momento, lhe era alheio. Vivia o mistério das celebrações litúrgicas com profundidade, com destacada capacidade de colher a eloqüência da Palavra de Deus no andamento da História, no profundo desígnio de Deus”.Para ele, a Santa Missa era o centro do seu dia e de toda a sua existência -lembrou Bento XVI. A realidade “viva e santa” da Eucaristia lhe dava a energia espiritual para guiar o Povo de Deus no caminho da santidade. O Bispo de Roma acrescentou:“JPII faleceu na vigília do II Domingo da Páscoa, na conclusão do “dia que o Senhor fez”. Sua agonia se deu naquele dia, naquele espaço de tempo novo, no oitavo dia, desejado pela Santíssima Trindade, mediante a obra do Verbo Encarnado, morto e ressuscitado. JPII deu várias vezes prova de estar, de certa forma, imerso nesta dimensão espiritual, sobretudo no cumprimento de sua missão terrena”. Bento XVI continuou a homilia afirmando que o pontificado de papa Wojtyla, em seu conjunto e em certos momentos específicos, parece um sinal e um testemunho da Ressurreição de Cristo. O dinamismo pascal, que tornou a existência de JPII uma resposta total ao chamado do Senhor, não podia se expressar sem a participação no sofrimento e naà morte do divino Mestre e Redentor. Não podemos nos esquecer de seu último e eloqüente testemunho de amor a Jesus, aquelas cenas de sofrimento e fé, sobretudo a sua última Sexta-feira Santa, em que apresentou aos fiéis e ao mundo o segredo de toda a vida cristã. Enfim, sua advertência “não tenham medo”, disse o pontífice, não se baseava em meras forças humanas, nem nos sucessos obtidos, mas na Palavra de Deus, na Cruz e na Ressurreição de Cristo. De fato, as suas últimas palavras: “Deixem que eu vá para o Pai” - como testemunham aqueles que lhe estavam próximos na sua agonia - foram o complemento de toda uma vida voltada à contemplação do Rosto do Senhor.Ao término da sua homilia, Bento XVI elevou a Deus um verdadeiro hino pelo dom que JPII fez à Igreja e ao mundo, com o seu longo pontificado:“Demos graças ao Senhor por ter-nos dado este seu fiel e corajoso servidor. Louvemos a Bem-aventurada Virgem Maria por ter velado, incessantemente, sobre sua pessoa e seu ministério, em benefício do povo cristão e de toda a humanidade. Rezemos para que ele continue a interceder, do Céu, por nós e, especialmente, por mim, que a Providencia chamou a acolher a sua inestimável herança espiritual”.Bento XVI terminou sua homilia expressando o desejo de que a Igreja possa, seguindo seus ensinamentos e exemplos, prosseguir fielmente e sem compromissos a missão evangelizadora de JPII, difundindo sem cessar o Amor misericordioso de Cristo, fonte de verdadeira paz para o mundo inteiro. A seguir, o papa Ratzinger agradeceu a participação maciça dos fiéis presentes na Praça São Pedro e dirigiu um pensamento especial aos participantes do I Congresso Apostólico Mundial da Misericórdia, que se iniciou hoje, com esta celebração Eucarística.O objetivo deste primeiro Congresso, em nível mundial, é aprofundar o rico magistério de JPII. Os trabalhos se concluirão no próximo dia 6, e são presididos pelo cardeal-arcebispo de Viena, Christoph Schönborn. A misericórdia de Deus, segundo o próprio papa JPII, é a chave de leitura privilegiada do seu pontificado. Ele queria que a mensagem do amor misericordioso de Deus chegasse a todos os homens. Eis porque quis elevar à honra dos altares a irmã Faustina Kowalska, humilde religiosa que se tornou, por um misterioso desígnio divino, mensageira profética da Misericórdia Divina, capaz de limitar o mal, derrotar a prepotência dos maldosos e o poder destruidor do egoísmo e do ódio. Hoje à noite, na cripta da basílica Vaticana, o cardeal Camillo Ruini, vigário do papa para a diocese de Roma, vai presidir a uma vigília de oração, na intenção de JPII, da qual participarão os jovens presentes na capital italiana. A oração mariana do terço, que contemplará os mistérios gloriosos, contará com reflexões do arcebispo de Cracóvia, cardeal Stanislaw Dziwisz, ex-secretário particular do papa Wojtyla, e do cardeal Ângelo Comastri, vigário do papa para o Estado da Cidade do Vaticano. Naturalmente, também na Polônia, o cardeal Józef Glemp, arcebispo emérito de Varsóvia, celebra hoje em sua cidade. Enquanto em Cracóvia, haverá uma vigília de oração diante da chamada ‘janela do papa’, na sede da cúria. Também nas outras dioceses do país, estão previstas iniciativas em comemoração do amado compatriota

A ARTE DO VAZIO

Há duas semanas comecei a aprender pintura chinesa, aumentando assim a lista das coisas que jamais pensei poder realizar. Mas a tradição da pintura chinesa é fascinante, difícil de resistir à sua atração. Baseada numa técnica aparentemente simples, o resultado é surpreendente, de uma riqueza incrível de detalhes. Uma das coisas que mais me intriga, porém, é o despojamento. Pinta-se mais com os vazios do que com os cheios, mais com o que é deixado do que com o que é posto. No fundo, é uma arte das escolhas, como na vida.Os instrumentos da pintura clássica chinesa são o pincel feito a partir de pelos de animais diversos, a tinta nanquim e água. Os contornos são definidos com traços ágeis, com mais ou menos humidade, mais ou menos tinta. O papel contribui com sua espessura e com o tipo de fibra do qual é feito. A destreza do artista revela-se não tanto pela qualidade do desenho, mas pelo “sabor” que ele confere às suas imagens através dos tons de cinza e preto que a água e o nanquim produzem. Aos poucos aparecem nuvens, pedras, riachos, animais, flores... e o papel vai virando paisagem. E um dos critérios da boa pintura é o equilíbrio de espaços cheios e vazios, que permitem simultaneamente um percurso para o olhar e o destaque das formas.Na arte da vida, os instrumentos das escolhas que vão definindo os contornos de nossa história geralmente são os afetos e valores, as relações e as circunstâncias sobre as quais o jogo de nossas encruzilhadas acontece. E a qualidade de uma vida boa, assim como a pintura chinesa, é apreciada não tanto pela aparência, mas pela sabedoria, criatividade e maturidade que brotam como frutos das decisões que cada um de nós vai realizando ao longo do tempo. Uma vida “saborosa” é uma vida na qual uma paisagem equilibrada (simples ou complexa) pode ser apreciada – um equilíbrio que frequentemente exige mais ousadia que meio-termo, note-se. E, outra vez como na pintura, os vazios que aceitamos não preencher são tão ou mais importantes quanto as cores que lançamos sobre nosso horizonte.E tudo é uma questão de escuta, na verdade. Pintar ou decidir, olhar ou caminhar, toda arte é uma forma de corte, de ruptura que exige uma escuta profunda da própria vida, da alma humana, do horizonte das pessoas que partilham conosco o tempo e o espaço, além de uma escuta atenta das Alturas. Quem cultiva essa atitude reverente diante da criação acaba descobrindo uma outra forma de ver. Para escutar, porém, é preciso não temer o silêncio, outra forma eloqüente de vazio.